cinco.
São mitos do calendário, tanto o ontem como o agora.
Pintava.
Pintava os cabelos e os quadros,
as cerâmicas e o quarto.
Tudo era cor,
e o cheiro dessa época
não podia ser outro
a não ser tinta molhada.
Um pouco nostálgica.
Afinal, de nada dessa época carrego.
Apenas guardo a lembrança sincera
do encontro que tive com aquela jovem,
tão autêntica e honesta.
Sem medo, faminta, complexa.
Me apaixonei por ela.
Desses tempos antigos não trouxe
amores,
anéis,
escritas,
confessos,
angústias e versos.
Nem mesmo os quadros e cerâmicas eu trouxe.
Minha espontaneidade não permitiu
com pavor do medíocre e do previsível
destruí.
os quadros que pintei, queimei;
as cerâmicas que fiz, quebrei;
e o grande amor que sinto, libertei.
Em um ontem não muito distante, me criei.
Consolidei minha personalidade,
e a muitos assustei.
Escondi a cauda por debaixo da saia,
mas a natureza é violenta,
instintiva e soberana.
Nenhuma loba se tranca
por tempo que a impeça de uivar.
Como sinto falta de você.
E como continuarei sentindo.
Afinal, você passou.
Por que o tempo passa,
afinal, tudo passa.
E de fato, passou.
Mas quão belo foi o percurso.
O agora guarda consigo
a sedução do desconhecido,
o sangue quente, fervente,
ansiando pelo novo,
mas guardo o ontem com muito amor
daquilo que foi mas jamais será.
Afinal,
são mitos do calendário, tanto o ontem como o agora.

