Mitos do Calendário
O hoje é o agora. O amanhã é o hoje. O ontem não existe e o futuro é uma dissociação.
Numa conversa de bar, no fim preguiçoso de um domingo, um estranho atravessou meu caminho. Não sei se foi ele que me encontrou ou se fui eu que o inventei, mas sei que suas palavras se derramaram em mim como se já estivessem esperando. Trouxe respostas que eu não pedia em voz alta, mas que latejavam em silêncio há meses.
Um amigo o elogiou. Ele sorriu e quase num sussurro duro, disse que agradecia o alimento que formigava seu ego, mas que estava ali apenas hoje. Amanhã, não sabia.
Aos ouvidos apressados, soaria grosseria. Para mim, foi revelação. Quem diz isso depois de um elogio? Quem ousa confessar que não promete permanência?
Eu me inclinei para dentro daquelas palavras, ouvindo atentadamente a voz do desconhecido. E então ele disse: “Eu estou aqui agora, inteiro e completo. Não sei se amanhã te encontrarei novamente ou se nossos caminhos jamais se cruzarão. Tenho bons e velhos amigos, mas também tenho novos. Não tenho a urgência da permanência. Tudo se dissolve no imaginário do tempo. Dito isso, por qual motivo perderia o meu, que é tão limitado, tentando segurar momentos que se vão? Eu vivo o agora. O amanhã é o agora, porque ele não existe. O presente é o único calendário.
Riram dele. Disseram que era a cerveja. Mas para mim, nunca ninguém falou com tanta clareza.
Pensei em Drummond. No poema que amo: “O tempo passa? Não passa.” São 68 poemas em Amar se aprende amando. Mas o que me prende não é o amor, é a quinta estrofe: “são mitos de calendário, tanto o ontem como o agora.” Como se aquele homem misterioso fosse apenas a voz desse verso encarnado.
O Ocidente acredita que o tempo é linha: começo, meio, fim. Transformamos o tempo em coisa palpável, medido por relógios, diários, calendários, séculos. Mas no Oriente o tempo é círculo. Nada começa, nada termina. O que foi, será. O ontem não existe. O amanhã também não.
Talvez aí esteja a resposta para a ansiedade: não há necessidade de despedidas nem de estreias, porque nada se perde e nada se inaugura. O agora é tudo. Absoluto. Único.
Talvez controlar a vida seja exatamente a receita para o fracasso. Talvez deixar que ela se enrole seja a única forma de vê-la se organizar.
O homem misterioso não me trouxe apenas palavras: trouxe descanso. Trouxe uma paz antiga, como se tivesse me devolvido algo que sempre soube.
O movimento do tempo cíclico é alívio: o que foi, será, porque tudo é. Não há urgência de permanência. O hoje é o agora. O amanhã é o hoje. O ontem não existe. O futuro é uma dissociação.

